O PREÇO DA OBESIDADE

Luiz Carlos de Moraes

Nos E.U. a obesidade já é considerada um problema de saúde pública e, no Brasil, os índices já apontam um percentual acima dos 15%. Ou seja, caminhando também para isso.

Assim como o hábito de fumar, boa parte da população já sabe que a obesidade traz conseqüências muito danosas à saúde tais como a hipertensão, a insuficiência cardíaca, tromboses além de agravar o diabetes entre outras. "Tadinho" do coração. É tanta carga... Isso, sem contar com a discriminação social desde a infância. O obeso freqüentemente ouve piadinhas, muitas até, de bastante mau gosto. Na "encolha" acabam sendo separados do grupo.

Há quem até valorize a obesidade tentando associá-la com riqueza, bem de vida e coisa e tal... De fato. Nos colégios particulares, onde teoricamente a renda familiar é maior, uma boa parte das crianças são mesmo gordinhas e a culpa... Come meu filhinho! Come! A criança por vezes não quer e a mãe insiste. Uma pesquisa brasileira mostra que, independente da classe social, a obesidade infantil em dois anos aumentou de 2 para 20%. Legal, né?

A obesidade deve ser levada em conta, não o peso nominal da balança, mas o percentual de gordura em relação à idade, sexo, altura e perfil físico. De um modo geral considera-se obesidade um percentual maior que 20% nos homens e 30% nas mulheres.

Os responsáveis pela obesidade são os tais adipócitos que a gente já nasce com uma quantidade determinada pelo código genético. Disso não se escapa. Entretanto, existem três fases na vida em que essa quantidade de adipócitos pode ser aumentada: durante a gestação, alimentação sólida antes do tempo (primeiro ano de vida) e a adolescência.

A falsa idéia que algumas gestantes têm de estar comendo por dois pode favorecer o bebê nascer com mais dessas celulazinhas. No consenso médico, a gestante que engorda mais de 18% do peso normal pode estar contribuindo para um futuro obeso. Os pediatras têm uma tabela de acompanhamento de peso e altura que mostra o desenvolvimento da criança dentro dos padrões de normalidade. Não são poucas as que estão sempre acima do peso.

Na adolescência, com a liberação hormonal acompanhada de maus hábitos alimentares e inatividade física os adipócitos fazem a festa e podem se multiplicar. Uma vez gordinho...

A ciência não encontrou, pelo menos até agora, fórmulas para diminuir a quantidade de dessas células de gordura do corpo. Os regimes apenas "desincham-nas", mas continuam lá, prontinhas para crescer de novo. A moçada adepta da lei do menor esforço facilmente são iludidas pelas dietas miraculosas, aplicações e outras paranóias. E cada vez que emagrecem, perdem mais músculos e ficam só elas; as danadinhas. Cada vez mais o corpo gasta menos calorias quando o regime não vem acompanhado de exercícios. Willians 1995 cita que a perda saudável de peso fica em torno de 2 quilos por mês podendo chegar, em alguns casos, a 4 quilos apenas no primeiro. Já viram como tem propaganda enganosa por aí vinculadas a certos produtos? Enganar o povo dá dinheiro.

Os hormônios têm uma grande influência no formato do corpo e nos locais de maior depósito de adipócitos. A olhos vistos, os homens acumulam mais gordura na região abdominal e as mulheres nos quadris. Quando chega a menopausa as mulheres que não fazem a reposição hormonal, além da gordurinha acumulada nos quadris ficam bem barrigudinhas também e, redondinhas, né?

Segundo a O.M.S. (Organização Mundial de Saúde), menos de 5% dos obesos o são por problemas de distúrbios diversos. A maioria é porque ingere mais calorias do que gasta. Essa matemática é simples. Balanço calórico positivo. É, nem todo positivo é bom, heim?

EMAGRECIMENTO SAUDÁVEL

Claro, ao obeso não basta simplesmente sair por aí fazendo qualquer atividade física. Em princípio, depois das avaliações médicas e funcionais os aeróbios com menos sobrecarga articular são os mais indicados. Entre eles, a caminhada e a bicicleta ergométrica. A ginástica localizada e a musculação também não são proibidos ao obeso desde que respeitadas as limitações do gesto biomecânico e a preferência do aluno.

Antes de tudo, quem tem a missão de orientar um obeso deve pensar em fazer com que a atividade se torne um hábito de vida saudável e não um fim em si mesmo de apenas emagrecer e pronto. Se o aluno não tomar gosto, abandona o exercício, volta a engordar, é mais um cliente perdido e um profissional derrotado.

Segundo os últimos relatórios do Colégio Americanos de Medicina Esportiva, não é necessário fazer só exercícios aeróbios por um tempo determinado para depois elaborar um novo programa de aumento de massa muscular. E se o aluno for um daqueles que detestam caminhar ou ficar "x" minutos em atividade contínua? O programa pode já ser fadado ao fracasso por não respeitar o princípio da preferência do aluno. Digamos que o aluno goste de musculação. Aí entra mais uma vez o bom senso profissional. O programa pode ser elaborado com uma série composta de seis a oito exercícios multiarticulares envolvendo os grandes grupos musculares e uma atividade aeróbia a ser negociada. Em se tratando de obeso o método de preferência, segundo o Prof. Alexandre Trindade, deve ser o alternado por segmento. O objetivo é sempre indicar atividades de maior gasto calórico e poucos exercícios estimulando o gosto pela atividade. O exercício não deve parecer uma coisa chata e difícil. Lembram lá em cima? Condição primeira... me parece lógico, né?

Um programa de força incluído entre os exercícios estimula o aumento da massa muscular ao mesmo tempo que o percentual de gordura vai diminuindo. O metabolismo basal aumenta com o aumento da massa muscular. Ou seja, o sujeito passa a gastar mais calorias parado.

É uma "boa" terminar a série de exercícios com pesos, e isso vale para qualquer pessoa, com atividade aeróbia. Em princípio, como a fonte de energia da musculação é o glicogênio muscular, e começa a ser reposto através das gorduras quando acaba a série, e nessa hora o aluno entra em atividade aeróbia o processo de emagrecimento é acelerado. O gasto de gordura como fonte de energética do exercício aeróbio é antecipado eliminando aquela necessidade do aluno ficar mais de 20 minutos ali "suando" pra emagrecer.

É importante lembrar que a gordura não é só esse "bicho papão" que todo mundo fala. Ela tem funções benéficas e vitais no organismo. Participa do transporte das vitaminas lipossolúveis, protegem os órgãos, são fonte de reserva nos processos catabólicos e protegem os neurônios. Bom, para quem não tem costume de pensar... neurônio pra quê, né?

Há mais um fator a ser levado em conta. O outro lado da moeda. Depois do sujeito emagrecer é preciso não deixar isso virar fixação. A gente precisa de um mínimo de percentual de gordura pelas razões já expostas. Por exemplo: mulheres magras demais podem ter irregularidades menstruais e os exercícios extenuantes podem destruir células musculares para gerar energia por falta de gordura como fonte principal... Nem tanto, nem tão pouco. Se seu cliente está emagrecendo, parabéns! Cuidado também para não virar mania.

Luiz Carlos de Moraes

Luiz Carlos de Moraes - E-mail: sgb9@segen.petrobras.com.br