CDD. 20.ed. 574.13

AVALIAÇÃO NUTRICIONAL DE TRIATLETAS

 

Reinaldo Abunasser BASSIT

Mara Assis MALVERDI

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A quantidade percentual de gordura corporal média encontrada nos atletas foi relativamente baixa (9% para os amadores e 7,7% para os profissionais – FIGURA 1). Estes valores encontram-se ligeiramente abaixo daqueles encontrados para triatletas submetidos à pesagem hidrostática (10,7%) (Gagliardi, 1996), porém permanecem na faixa de valores encontrada para outros triatletas, como a observada para competidores do "Ironman" de 1982, que apresentaram GC entre 5 e 11,3% (McArdle, Katch & Katch, 1992). Este baixo conteúdo de GC reflete, de maneira positiva, a adaptação dos atletas ao treinamento de longa distância. De fato, além de auxiliar no desempenho indiretamente, uma vez que cada atleta estará submetido a uma carga de peso menor, baixos índices de GC facilitam a perda de calor, fundamental durante a realização de provas longas e intensas (McArdle & Katch, 1994; Newsholme et alii, 1994).

 FIGURA 1 – Percentual médio de gordura corporal de triatletas.

Outro fato que colabora para os baixos índices de GC nos triatletas está relacionado à elevada demanda energética da prova e do programa de treinamento que seus participantes realizam associado ao consumo energético total inferior ao necessário.

O gasto energético médio para o "triathlon" na modalidade olímpico é de aproximadamente 1.400 a 1.700 kcal e no "short" de 600 a 900 kcal (Triathlete, 1995). Nos atletas desse estudo, porém, o gasto energético diário foi maior porque o volume de treinamento/dia era maior que a duração total das provas, compreendendo três horas para os amadores e quatro horas para os profissionais. De fato, o gasto diário na atividade foi de 1.870 e 2.450 kcal para amadores e profissionais, respectivamente. A necessidade energética total diária nestes atletas chegou a 3.730 e 4.250 kcal, respectivamente (TABELA 1).

TABELA 1 - Gasto e necessidade energética média diária de triatletas amadores e profissionais.

 

Amadores

Profissionais

Necessidade energética total diária

3.730 kcal

4.250 kcal

Gasto energético diário na atividade física

1.870 kcal

2.450 kcal

 

O consumo energético diário alcançou 3.000 e 3.800 kcal para amadores e profissionais, com a ingestão média de 168 e 195 g de proteínas/dia, respectivamente (TABELA 2). Essa ingestão proteíca garante um total de 2,4 e 2,8 g/kg por dia, respectivamente (TABELA 2). Observa-se, então, que a diferença entre o consumo energético diário e a necessidade estimada foi maior no grupo amador, 730 kcal, do que no grupo profissional, 450 kcal.

 TABELA 2 - Consumo médio diário de energia e proteínas no total em quilocalorias e gramas e por kg de peso corpóreo de triatletas amadores e profissionais.

 

Amadores

Profissionais

kcal

Prot (g)

kcal

Prot (g)

Total

3.000

168

3.800

195

Total/kg/dia

43

2,4

56

2,8

 

Além do aporte calórico adequado ao desgaste energético, é fundamental para o melhor rendimento, uma adequação da qualidade e quantidade dos macronutrientes. Esta necessidade parece ser ainda mais importante para atletas deste tipo de prova, de longa duração e alta intensidade, na qual o desgaste das reservas de nutrientes é levada ao extremo. Observou-se para nossos atletas a ingestão de 52% do valor calórico total na forma de carboidratos, 28% de lipídios e 20% de proteínas para os amadores, e 56, 26 e 18%, respectivamente para atletas profissionais (TABELA 3). Estes dados quando comparados aos relatados por dois outros estudos em atletas americanos (Wolinsky & Hickson, 1996) mostram que os valores estão situados em posição intermediária, porém um deles incluiu mulheres, e o outro não situou a população utilizada em termos de idade e programa de treinamento.

TABELA 3 - Contribuição média dos macronutrientes em gramas e porcentagem do valor calórico total da dieta de triatletas amadores e profissionais.

 

Amadores

Profissionais

(g)

(%)

(g)

(%)

Carboidratos

405

52

600

56

Lipídios

106

28

124

26

Proteínas

168

20

195

18

Segundo a Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN) é recomendado uma ingestão diária de 150 a 175 g de carboidratos/1.000 Kcal, sendo 60 a 70% do valor calórico total (VCT), 22 a 28 g de lipídios/1.000 kcal, sendo 20 a 25% do VCT, e 25 a 30 g de proteínas, sendo 10 a 12% do VCT respectivamente.

Comparando-se essas recomendações com o consumo médio encontrado na dieta dos triatletas, as quantidades ingeridas de carboidratos deveriam estar entre 450 a 525 g para amadores e 570 a 665 g para profissionais; lipídios entre 66 a 84 g para amadores e 84 a 106 g para profissionais; e proteínas entre 75 a 90 g para amadores e 95 a 114 g para profissionais. No entanto, os dados revelam que a ingestão de proteínas e lipídeos estão acima dos padrões, enquanto a ingestão de carboidratos esta aquém destes valores para o grupo amador, mas adequada para o profissional. Já a distribuição calórica apresentou-se fora dos padrões para ambos os grupos (TABELA 3).

Existem evidências de que um esportista em pleno treino intenso e continuado deve ter uma dieta na qual 60 a 70% da energia seja proveniente de carboidratos, 12 a 15% como proteína e o restante na forma de lípides (Newsholme et alii, 1994; Wolinsky & Hickson, 1996). Se compararmos estes valores com os obtidos para os grupos experimentais, fica evidente que os atletas avaliados apresentaram uma grande defasagem na ingestão de carboidratos. Esta inadequação pode levar a um comprometimento da "performance", uma vez que a manutenção de níveis elevados de glicogênio muscular e hepático é requisito fundamental para a manutenção da intensidade do exercício (McArdle & Katch, 1994; McArdle et alii, 1992; Wolinsky & Hickson, 1996).

O consumo de lípides, por sua vez, não é fator limitante para a "performance", primeiro pelo seu elevado poder energético, e também pelo fato de apresentarmos sempre estoques não inferiores a 4 e 5% do peso corporal na forma de tecido adiposo (Gagliardi, 1996; McArdle & Katch, 1994; McArdle et alii, 1992). Além disso, por se caracterizar como prova de alta intensidade, durante o "triathlon", embora ocorra substancial consumo de lípides, também ocorre considerável consumo de carboidratos, uma vez que a produção de um percentual elevado de energia a partir de lípides em substituição aos carboidratos, induz perda de "performance" (Newsholme & Leech, 1983). Seria, porém, leviano descartarmos uma participação percentual dos lípides da ordem de 10 a 15% do total de energia produzida (Kremer & Engelhardt, 1989). Esta produção não é suficiente para impor a necessidade de maior aporte nutricional e aumento dos estoques de lípides em triatletas, fato que lhes permite manter uma ingestão reduzida, assim como, reduzidos os seus estoques. Analisando-se os dados apresentados na TABELA 3, percebe-se, portanto, que a ingestão de lípides por estes atletas poderia ser substancialmente reduzida, permitindo maior ingestão de carboidratos.

As proteínas, embora possam ser oxidadas, não desempenham papel significativo na geração de energia durante a atividade física, podendo, porém, gerar até 17% da energia necessária durante atividade intensa e durante o jejum prolongado. A ingestão adequada de proteínas para atletas de resistência deve variar entre 1,0 e 2,0 g/kg de peso corporal, ligeiramente superior ao RDA (Recommended Daily Allowance) (Applegate, 1996; Newsholme et alii, 1994). Em nosso estudo o consumo diário de proteína mostrou-se superior às recomendações acima citadas, chegando a 2,4 e 2,8 g/kg de peso corporal para amadores e profissionais, respectivamente (TABELA 2).

Com relação aos dados obtidos com o questionário de conhecimentos básicos de nutrição, observou-se grande incidência de erro nas questões de no. 2, 4, 5, 7 só nos amadores, e 9 (FIGURA 2). Estas questões são consideradas de fundamental importância para a manutenção de uma ingestão adequada de alimentos. Outro resultado interessante mostra a grande dificuldade dos atletas em estabelecer a relação nutriente/fonte, principalmente para o grupo dos carboidratos. A importância deste levantamento assume maior magnitude quando se observa que cerca de 67% dos atletas profissionais consultaram um nutricionista para receber informações e o perfil de erros foi equivalente ao observado para o grupo de atletas amadores, no qual somente 26% dos indivíduos recorreu a um nutricionista (FIGURA 3). É interessante notar que o grande percentual de erro nas questões ligadas à determinação das fontes de nutrientes na dieta pode ser o motivo da inadequação da dieta entre os atletas amadores. No grupo dos atletas Profissionais, no entanto, observou-se uma maior adequação da dieta embora o número de acertos no questionário tenha sido equivalente ao observado para o grupo de atletas amadores. Essa discrepância pode, porém estar ligada à intervenção de um nutricionista, conforme observado na análise da questão número 10 (vide FIGURA 3). No entanto, os resultados reforçam a necessidade de maiores informações nutricionais para que os atletas saibam aplicar de forma adequada os princípios da nutrição em suas dietas e possam otimizar o seu desempenho. Assim, é fundamental o acompanhamento de um profissional da área de nutrição para orientar sobre as condutas nutricionais mais adequadas a cada atleta, e o desenvolvimento de uma educação nutricional mais efetiva, através da aplicação sistemática de questionários de conhecimentos básicos de nutrição como ponto de partida para uma melhor orientação.

 

FIGURA 2 – Porcentagem de acertos das questões do questionário de conhecimentos em nutrição de triatletas profissionais e amadores.

 

FIGURA 3 – Porcentagem de triatletas que consultaram um nutricionista.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • APPLEGATE, L. A mania das dietas e utilização de suplementos na prática esportiva. Sports Science Exchange, v.4, p.1-4, 1996.
  • DIET Balancer Program. New York, Nutridata Corporation, 1995. /Software.
  • DOMINGUES FILHO, L.A. Triathlon. Rio de Janeiro, Sprint, 1995.
  • GAGLIARDI, J.F.L. Estudo de equações de estimativa de densidade e composição corporal em atletas do sexo masculino. São Paulo, 1996. Tese (Mestrado) - Escola de Educação Física, Universidade de São Paulo. p.1-75.
  • GUEDES, D.P. Composição corporal: princípios, técnicas e aplicações. 2.ed. Santa Catarina, CEITEC, 1994.
  • KRAUSE, M.V.; MAHAN, L.K. Alimentos, nutrição e dietoterapia. 7.ed. São Paulo, Roca, 1991.
  • KREMER, A.; ENGELHARDT, M. Medicine du triathlon. In: PRATIQUE du triathlon. Paris, Editions Vigot, 1989, p.112-34.
  • LAMB, D.R.; KNUTTGEN, H.G.; MURRAY, R. Physiology and nutrition for competitive sport. Boston, Cooper Publ., 1994. p.339-72.
  • LINDER, M.C. Nutritional biochemistry and metabolism. 2.ed. New York, Appleton & Lange, 1991. p21-86.
  • McARDLE, W.D.; KATCH, F.I. Nutrição, exercício e saúde. 4.ed. Rio de Janeiro, MEDSI, 1994.
  • McARDLE, W.D.; KATCH, F.I.; KATCH, V.L. Fisiologia do exercício: energia, nutrição e desempenho humano. 3.ed. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1992.
  • NEWSHOLME, E.A.; LEECH, A.R. Biochemistry for the medical sciences. Chichester, John Willey, 1983. p.300-81.
  • NEWSHOLME, E.A.; LEECH, T.; DUESTER, G. Keep on running: the science of training and performance. Chichester, John Willey, 1994. p.50-157.
  • PROGRAMA de Apoio à Decisão em Nutrição, versão 2.5. São Paulo, CIS-EPM/UNIFESP, 1994. /Software.
  • SANTOS, J.A.R. Dietética do desportista. Porto, Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física. Universidade do Porto, 1995.
  • TRIATHLETE. Canada, BPA International, n.140, p.44-6, 1995.
  • WILLIAMS, M.H. Nutrition for fitness & sport. 4.ed. London, Brown & Benchmark, 1995. p.7-182.
  • WOLINSKY, I.; HICKSON, J.F. Nutrição no exercício e no esporte. 2.ed. São Paulo, Roca, 1996.

 

Reinaldo Abunasser BASSIT

 

 

CRN - 6845

Formação Profissional

  • Professor de Educação Física - Universidade de São Paulo - Escola de Educação Física. (EEFUSP) - 1988-1991.
  • Nutricionista - Universidade Anhembi Morumbi - 1993 - 1996
  • Mestrado - Universidade de São Paulo - Instituto de Ciências Biomédicas. (ICB- USP). Laboratório de Metabolismo
    • Ano de entrada: 1998
    • Previsão de Conclusão: 2000

Atividades Profissionais

  • Professor de Natação e Hidroginástica Período: 2º semestre de 1990
  • Preparação Física Individual (Personal Training) Período: 1989 a 1997
  • Professor de Musculação e Condicionamento Físico Período: 1992 a 1995
  • Coordenador de Natação e Hidroginástica Período: 1994
  • Avaliação e Orientação Nutricional dos Atletas Olímpicos
    • Roberto Scheidt
    • Aurélio Miguel
    • Daniele Zangrando
    • Cristiane Parmiggiane
    • Henrique Guimarães
    • Leandro Macedo
    • Mariana Ohata
  • Orientador Nutricional e Avaliador da Composição Corporal de Times Profissionais.
  • Olympikus Telesp (voleibol) 1995 e 1997
  • Sport Clube Banespa (voleibol) 1996 e 1997.
  • Sport Club Corinthians Paulista (Futebol) 1997
  • Portuguesa Futebol Clube 1997.
  • São Paulo Futebol Clube 1995 e 1996.
  • Preparador Físico das Equipes Masculina e Feminina de Handebol Profissional de Osasco. Período: 1997. (Campeão Brasileiro com a Equipe Feminina).
  • Nutricionista da Equipe Brasileira de Duplas na Travessia da Race Across América 98. Período: 1998. (O Brasil foi campeão pela primeira vez obtendo o record na categoria com o tempo de 7 dias e10 horas.)
  • Consultório particular (desde 1997)

 

Mara Assis MALVERDI

CRN - 6844

Formação Profissional

  • Professora de Educação Física - Universidade de São Paulo - Escola de Educação Física. (EEFUSP) - 1988-1991.
  • Nutricionista - Universidade Anhembi Morumbi - 1993 - 1996

Atividades Profissionais

Área de Educação Física

  • Professora de Ed. Física Escolar (1992-1994)
  • Professora de Natação e Hidroginástica (1992-1994)
  • Professora de Ginástica (1992-1994)
  • Coordenadora de atividades aquáticas (1994)

Área de Nutrição

  • Atendimento em clínicas médicas (1997-1998)
  • Atendimento em academias:
    • Master Academia (1997 - 1998)
    • Raia 4 Morumbi (1997-2000)
    • Raia 4 Moema (1997-2000)
    • Kainágua Fitness (desde 1998)
    • Aquademia Sports (1998-1999)
    • Consultório particular (desde 1997)

 

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